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Repertórios

Repertório bom trabalha a seu favor.

Cada repertório aqui vem com a fonte, um exemplo de como encaixar no argumento e o erro mais comum de quem usa. Nada de lista para decorar.

Antes de tudo: a pergunta que muda o jogo

“Essa referência está trabalhando a meu favor ou só está ocupando espaço?”

Repertório produtivo segue três passos: apresentar a referência, explicar o que ela diz e relacionar com o problema do tema. Se faltar o terceiro passo, vira decoração.

O INEP também avisa: a cartilha oficial da redação do ENEM 2026 recomenda evitar o chamado “repertório de bolso”, aquela referência decorada que serve para qualquer tema e não se conecta de verdade à discussão.

9 repertórios

Escolha um e veja como usar

LeiConstituição Federal de 1988, artigo 6º

O que é

O artigo que lista os direitos sociais: educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, transporte, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância e assistência aos desamparados. Alguns entraram depois de 1988: moradia em 2000, alimentação em 2010 e transporte em 2015, por emendas constitucionais.

Combina com temas sobre

Praticamente qualquer direito básico: educação, saúde, moradia, trabalho, fome.

Como encaixar (exemplo)

A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 6º, inclui a moradia entre os direitos sociais de todos os brasileiros. Entretanto, na prática, muitas famílias vivem em encostas e às margens de rios, justamente as áreas mais atingidas por enchentes, o que revela a distância entre o direito garantido no papel e a realidade das cidades.

Erro comum

Parar em “a Constituição garante”. O argumento está na distância entre a lei e a realidade: mostre por que o direito não chega a quem precisa.

Fonte: Constituição Federal (Planalto)

LeiEstatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990)

O que é

A lei que protege os direitos de crianças e adolescentes. O artigo 4º diz que família, comunidade, sociedade e poder público devem assegurar esses direitos com absoluta prioridade.

Combina com temas sobre

Infância e adolescência: ambiente digital, trabalho infantil, educação, violência.

Como encaixar (exemplo)

O Estatuto da Criança e do Adolescente determina que a família, a sociedade e o poder público devem assegurar os direitos de crianças e adolescentes com absoluta prioridade. Contudo, no ambiente digital, essa prioridade raramente aparece: muitas crianças usam redes sociais sem supervisão e ficam expostas a conteúdos e contatos que nenhum desses agentes acompanha.

Erro comum

Citar o ECA sem dizer qual responsabilidade está sendo descumprida. A expressão “absoluta prioridade” é a parte forte: use para cobrar quem não está cumprindo.

Fonte: Lei nº 8.069/1990 (Planalto)

LeiEstatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003)

O que é

A lei que garante os direitos das pessoas com 60 anos ou mais. Ela se chamava “Estatuto do Idoso” e passou a se chamar Estatuto da Pessoa Idosa com a Lei nº 14.423/2022.

Combina com temas sobre

Envelhecimento, cuidado, previdência, inclusão digital de pessoas idosas.

Como encaixar (exemplo)

O Estatuto da Pessoa Idosa assegura a quem tem 60 anos ou mais o direito à saúde, à dignidade e à convivência comunitária. Entretanto, com a digitalização de serviços básicos, como bancos e agendamentos médicos, muitas pessoas idosas passam a depender de terceiros para tarefas simples, o que fragiliza a autonomia que a própria lei procura proteger.

Erro comum

Usar o nome antigo. Desde 2022, o nome oficial é Estatuto da Pessoa Idosa: mostrar que você sabe disso conta a seu favor.

Fontes: Lei nº 10.741/2003 e Lei nº 14.423/2022 (Planalto)

LeiMarco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014)

O que é

A lei que estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da internet no Brasil. Entre os princípios estão a proteção da privacidade e dos dados pessoais. Ela costuma andar junto com a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018).

Combina com temas sobre

Internet, dados pessoais, redes sociais, privacidade.

Como encaixar (exemplo)

O Marco Civil da Internet estabelece a proteção da privacidade e dos dados pessoais como princípios do uso da rede no Brasil. Apesar disso, muitos usuários aceitam termos de uso sem lê-los e entregam informações que alimentam sistemas de recomendação capazes de influenciar o que veem, compram e até em que acreditam.

Erro comum

Atribuir à lei o que ela não diz, como “o Marco Civil proíbe fake news”. Cite só o que a lei estabelece de fato.

Fonte: Lei nº 12.965/2014 (Planalto)

LivroPaulo Freire, “Pedagogia do Oprimido”

O que é

Freire critica a “educação bancária”, em que o professor apenas “deposita” conteúdos em alunos passivos. Ele defende uma educação baseada no diálogo e na reflexão crítica sobre a própria realidade.

Combina com temas sobre

Educação, alfabetização, desinformação, cidadania, preparo para o trabalho.

Como encaixar (exemplo)

Paulo Freire, em “Pedagogia do Oprimido”, critica a educação bancária, na qual o estudante apenas recebe conteúdos sem questioná-los. Nesse sentido, esse modelo ajuda a explicar a facilidade com que informações falsas se espalham: quem não aprendeu a questionar o que lê tende a aceitar e compartilhar qualquer conteúdo que confirme o que já pensa.

Erro comum

Usar Freire só como “patrono da educação” sem conceito nenhum. O que dá força é o conceito (educação bancária × educação crítica) ligado ao problema.

LivroZygmunt Bauman, “Modernidade Líquida” (2000)

O que é

O sociólogo polonês descreve a sociedade contemporânea como “líquida”: relações, vínculos e instituições se tornam frágeis, passageiros e guiados pelo consumo.

Combina com temas sobre

Relações nas redes sociais, consumo, apostas, solidão, vínculos frágeis.

Como encaixar (exemplo)

Segundo Zygmunt Bauman, em “Modernidade Líquida”, as relações contemporâneas tornaram-se frágeis e passageiras. Nessa perspectiva, as apostas on-line exploram exatamente essa lógica: oferecem recompensas imediatas e descartáveis, que prendem o usuário à próxima aposta e substituem planos de longo prazo pela promessa de um ganho rápido.

Erro comum

Ser famoso não transforma Bauman em repertório de bolso: o problema é usá-lo em qualquer tema, sem ligação direta com a discussão. Só use se a ideia de “liquidez” explicar de verdade o seu argumento. Veja a opinião do Arthur sobre repertório de bolso.

LivroByung-Chul Han, “Sociedade do Cansaço” (2010)

O que é

O filósofo sul-coreano radicado na Alemanha afirma que vivemos numa “sociedade do desempenho”: as pessoas cobram de si mesmas uma produtividade sem limite. Ele associa esse modelo ao esgotamento e a adoecimentos como a depressão e a síndrome de burnout.

Combina com temas sobre

Saúde mental, pressão por desempenho, trabalho, redes sociais.

Como encaixar (exemplo)

De acordo com o filósofo Byung-Chul Han, a sociedade contemporânea é marcada pela cobrança constante por desempenho. Sob essa ótica, nas redes sociais, essa cobrança ganha uma vitrine: jovens comparam a própria rotina com recortes idealizados da vida alheia e passam a se sentir sempre insuficientes, o que contribui para quadros de ansiedade e esgotamento.

Erro comum

Dizer que “Han prova que as redes causam depressão”. Ele é filósofo, não pesquisador da área da saúde. Use as ideias dele para explicar o mecanismo, não como dado estatístico.

ConceitoHannah Arendt, a “banalidade do mal”

O que é

Ao acompanhar o julgamento do nazista Adolf Eichmann, relatado no livro “Eichmann em Jerusalém” (1963), Arendt concluiu que grandes males podem ser praticados por pessoas comuns que deixam de refletir sobre as consequências do que fazem.

Combina com temas sobre

Ausência de pensamento crítico, discurso de ódio, violência normalizada, desinformação.

Como encaixar (exemplo)

Hannah Arendt mostrou que o mal pode ser praticado por pessoas comuns que deixam de refletir sobre os próprios atos. Paralelamente, algo parecido ocorre no compartilhamento de ataques virtuais: muitos usuários repassam ofensas sem considerar o dano que causam, como se a responsabilidade se diluísse entre milhares de cliques.

Erro comum

O conceito nasceu do julgamento de um crime gravíssimo. Use com seriedade, para falar de falta de reflexão crítica, e nunca de forma que pareça diminuir o Holocausto.

LivroSérgio Buarque de Holanda, “Raízes do Brasil” (1936)

O que é

O livro apresenta o “homem cordial”. “Cordial” vem do latim cor, coração: o brasileiro tenderia a agir guiado por emoções e relações pessoais, com dificuldade de separar o que é público do que é privado.

Combina com temas sobre

Gestão pública, favorecimento pessoal, desigualdade no acesso a direitos.

Como encaixar (exemplo)

Para Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, a cordialidade brasileira dificulta a separação entre interesses públicos e privados. Nesse contexto, essa herança ajuda a entender por que obras de prevenção em áreas de risco frequentemente perdem espaço para projetos de maior visibilidade política, enquanto as comunidades mais vulneráveis continuam desprotegidas.

Erro comum

Achar que “cordial” significa gentil ou educado. Esse erro é muito comum e mostra que o repertório foi decorado, não entendido.

Repare nos exemplos: depois de apresentar o repertório, o período seguinte sempre começa com um conectivo (“Entretanto”, “Nesse sentido”, “Sob essa ótica”…). É ele que faz a ponte entre a referência e o seu argumento, e ainda conta a favor da coesão. Veja o banco de conectivos.

Os exemplos de parágrafo foram escritos pelo VPZ para mostrar o encaixe. Copiar o parágrafo inteiro na prova não funciona: adapte ao tema e à sua tese.